Mulheres indígenas mantêm tradições com plantio de milho Avaxi Ete
Cacique da aldeia Tekoa Takuaty, Juliana Kerexu tenta manter a tradição do povo Mbya-Guarani através do cultivo do milho Avaxi Ete.
Conexão da ancestralidade. “Está vendo este milho Avaxi Ete? Enquanto a semente dele existir, o povo Mbya-Guarani vai existir”. Foi este o ensinamento que a avó de Juliana Kerexu passou para ela, ainda moça. Única filha mulher entre seis irmãos, Juliana é fundadora e cacique da aldeia Tekoa Takuaty, localizada na Ilha da Cotinga, litoral do Paraná, a primeira da região liderada por uma mulher.
A aldeia busca manter a tradição do povo Mbya-Guarani através do cultivo do milho Avaxi Ete. Essa é uma conexão da ancestralidade com a vivência do presente e a construção de um futuro. Entretanto, para realizar o sonho de guardar a tradição de seu povo, o caminho de Juliana foi repleto de dificuldades.
“Eu tive um sonho muito nítido. Vi uma aldeia recém construída, com casas feitas de bambu, como as tradicionais, que minha avó me contava. Eu vi também uma casa de reza, que tem um significado gigantesco para nós. O milho, plantado e colhido, é um agradecimento à cura e ao batismo. Quando encostei nesta casa, a terra ainda estava úmida e acordei. Minha mãe e meu marido me falaram que era Nhanderu (deus em Guarani) e Nhandexy Hete (nossa mãe eterna), mostrando minha aldeia”, lembrou.
A partir deste sonho, Juliana e o marido buscaram uma localização para a aldeia. Depois de várias expedições, escolheram a Ilha da Cotinga, local onde a cacique nasceu e foi criada.
No final de 2018 foi construída a primeira casa da aldeia. Hoje, já possuem a própria casa de reza e cerca de 21 pessoas – entre mulheres, homens e crianças – trabalham na colheita do milho e de outros alimentos, como mandioca, batata doce, melancia e amendoim.
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“O milho e a plantação nos trazem muita força. Os homens participam e ajudam, mas são as mulheres que fazem a plantação junto com os filhos. A mulher, dentro da comunidade, se torna a guardiã das sementes”.
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Eleita como cacique em 16 de novembro de 2018, Juliana Kerexu lembrou que algumas espigas utilizadas no primeiro plantio haviam sido guardadas por sua avó e sua mãe, e por isso considera que as mulheres são as principais guardiãs da tradição do milho Avaxi Ete. “O milho e a plantação nos trazem muita força. Os homens participam e ajudam, mas são as mulheres que fazem a plantação junto com os filhos. A mulher, dentro da comunidade, se torna a guardiã das sementes”.
Fortalecendo o plantio e as tradições

A colheita deste ano trouxe muita alegria para a aldeia, que viu no milho vermelho o resultado de muitas lutas e vitórias, além de um grande senso de trabalho em comunidade e da importância da espiritualidade. O cultivo também trouxe autonomia, tanto no aspecto alimentar quanto econômico, pois permite que se alimentem de maneira suficiente com o que produzem, reforçando a importância do Nhandereko (jeito de ser e viver Guarani). A previsão é que para o plantio deste ano chegue a triplicar.
Juliana Kerexu explicou que o principal objetivo da colheita é que a semente chegue onde é necessária. “Não vendemos o milho que plantamos, nós trocamos com outras aldeias, porque acreditamos na importância de cultivar a semente sagrada dentro da nossa cultura”.
Além disso, a próxima colheita, que acontece em março do ano que vem, traz a expectativa da realização da cerimônia do milho – Nhemongarai –, um ritual muito importante para o povo Mbya-Guarani, em que se recebe orientação espiritual e de cura. As sementes do milho são benzidas, trazendo a renovação da vida e o fortalecimento para o corpo e espírito.
Rede de apoio entre mulheres indígenas
